Mar das
lamentações
Há muito tempo,
passei a notar como é desproporcional a quantidade de lamentos que nós, seres
humanos, utilizamos ao longo de nossas vidas. As pessoas se lamentam o tempo
todo. São tantos lamentos e lamentações descomunais. E em meio a esse mar de
lamentações, sempre acabo encontrando os meus próprios lamentos submersos, um e
outro se afogando, mas isso é uma raridade. E quando não encontro meus lamentos
nos lamentos dos outros, numa identificação à primeira vista.
Não posso deixar
de ficar abismado com essa realidade de lamentações. Seria mais apropriado e
muito mais saudável se as coisas dessem certo. Se nos lamentamos tanto, é por
que estamos no caminho dos desacertos, das frustrações, das decepções e, pior,
não estamos nos esforçando para nos livrarmos do enfado que vivemos, o qual nos
leva a entoar, diariamente, nosso canto de lamentações.
Pessoas felizes
não se lamentam. Penso que ser feliz o tempo todo não seria possível, mas
também não é impossível. Ao passo que se lamentar o tempo todo parece ser
bastante possível. Fico triste ao constatar que há mais pessoas infelizes e
frustradas do que pessoas felizes e bem resolvidas, em vista a quantidade de
lamentações que encontramos por aí, roubando a cena dos discursos de
contentamento, uma minoria empática.
Nem mesmo os
psicólogos têm conseguido dar o diagnóstico para tal moléstia. Entre um lamento
e outro, acabam dizendo que devemos buscar resolver nossos conflitos e procurarmos
sermos pessoas bem resolvidas, enquanto ficamos na frente deles, rememorando
nossos conflitos e nossa falta de resolução. É que o excesso de lamentações
parece mesmo ser um câncer de evolução rápida, atingindo a psique, até mesmo,
das mentes mais evoluídas.
Tenho para mim,
que excesso de lamentos é inversamente proporcional a uma alma de conteúdo
cheio. Afinal, é muito mais fácil exteriorizar lamentações do que aumentar a
qualidade do teor anímico. Assim como não é muito difícil deduzir, que numa
alma enriquecida de bom conteúdo, não há espaço para lamentações.
E assim sigo com
minhas analogias sem teor científico algum, tentando afogar minhas lamentações
nesse oceano, que insiste em se expandir e, tentando melhorar meu conteúdo
anímico para que em minha alma, não haja mais espaço para lamentos. Quero
encher esse mar, de felicidade, e ouso a afirmar, simplificando e facilitando
tudo, que lamentar-se é um vício. E, ainda, ouso a indagar: por que a
felicidade também não pode ser um vício? Com direito a crise de abstinência e
tudo mais.
Marcelo
Albertini