quinta-feira, 31 de julho de 2014


Deixei de colocar pingos em “is”

Agudos que gritam em “us”

Deixei de pontuar as frases

De me preocupar com as fases

Deixei de calcular as métricas

De me apegar as regras

Deixei de sistematizar denotações

De economizar conotações

Deixei o texto e a vida fluírem

As preocupações irem

E as canções virem

Entoar um canto

Ao pé quebrado de meu ouvido

Cansado de ouvir espantos.

 

Marcelo Albertini

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Grifo
em meu
abismo
seu sorriso,
que permanece
comigo
encalacrado
em minha
mente.
Grifo
para lembra-me
dos desatinos
cometidos
por um
amor,
que nunca
imaginei
que fosse
se fazer
ausente.


Marcelo Albertini

terça-feira, 29 de julho de 2014


Céu da poesia
 
Versos caídos
como anjos renegados,
do céu do amor desentoado,
enchendo o meu coração
da mais triste poesia.
 
Transbordando de saudade,
de lágrimas e sofrimento,
que escorrem para o papel
na mais triste harmonia.
 
Aterrissam feito véu,
ao léu jogado ao vento,
na beleza do papel,
acolhendo o sofrimento.
 
Anjos, agora, sem asas.
Versos, agora, sem vida.
Tristeza que cai desafinada,
emerge triunfante
ao céu da poesia.
 
Marcelo Albertini

Mar das lamentações

 

Há muito tempo, passei a notar como é desproporcional a quantidade de lamentos que nós, seres humanos, utilizamos ao longo de nossas vidas. As pessoas se lamentam o tempo todo. São tantos lamentos e lamentações descomunais. E em meio a esse mar de lamentações, sempre acabo encontrando os meus próprios lamentos submersos, um e outro se afogando, mas isso é uma raridade. E quando não encontro meus lamentos nos lamentos dos outros, numa identificação à primeira vista.

Não posso deixar de ficar abismado com essa realidade de lamentações. Seria mais apropriado e muito mais saudável se as coisas dessem certo. Se nos lamentamos tanto, é por que estamos no caminho dos desacertos, das frustrações, das decepções e, pior, não estamos nos esforçando para nos livrarmos do enfado que vivemos, o qual nos leva a entoar, diariamente, nosso canto de lamentações.

Pessoas felizes não se lamentam. Penso que ser feliz o tempo todo não seria possível, mas também não é impossível. Ao passo que se lamentar o tempo todo parece ser bastante possível. Fico triste ao constatar que há mais pessoas infelizes e frustradas do que pessoas felizes e bem resolvidas, em vista a quantidade de lamentações que encontramos por aí, roubando a cena dos discursos de contentamento, uma minoria empática.

Nem mesmo os psicólogos têm conseguido dar o diagnóstico para tal moléstia. Entre um lamento e outro, acabam dizendo que devemos buscar resolver nossos conflitos e procurarmos sermos pessoas bem resolvidas, enquanto ficamos na frente deles, rememorando nossos conflitos e nossa falta de resolução. É que o excesso de lamentações parece mesmo ser um câncer de evolução rápida, atingindo a psique, até mesmo, das mentes mais evoluídas.

Tenho para mim, que excesso de lamentos é inversamente proporcional a uma alma de conteúdo cheio. Afinal, é muito mais fácil exteriorizar lamentações do que aumentar a qualidade do teor anímico. Assim como não é muito difícil deduzir, que numa alma enriquecida de bom conteúdo, não há espaço para lamentações.

E assim sigo com minhas analogias sem teor científico algum, tentando afogar minhas lamentações nesse oceano, que insiste em se expandir e, tentando melhorar meu conteúdo anímico para que em minha alma, não haja mais espaço para lamentos. Quero encher esse mar, de felicidade, e ouso a afirmar, simplificando e facilitando tudo, que lamentar-se é um vício. E, ainda, ouso a indagar: por que a felicidade também não pode ser um vício? Com direito a crise de abstinência e tudo mais.

 

Marcelo Albertini

domingo, 27 de julho de 2014

Ventos
Caminhos
Direções...

Encontros
Destinos
Estações...

O sol dizendo que sim
A chuva dizendo que não

Abraços
Beijos
Sorrisos...

Sarcasmos
Desprezos
Abismos...

O peito procurando a luz
A pele escapando de arranhões

Impasses
Ultrajes
Desmedidos...

Encaixes
Perfeitos
Desunidos...

O fio da faca a acariciar a pele
O carinho da mão a descascar a fruta

Sonhos
Dourados
Na cumbuca...

Enfados
Pesados
Na nuca...

Meu sorriso distante de mim
Seu sorriso distante de si

Amores
Sob sombras
Trocadas...

Chamas
Com brasas
Escassas...

Os caminhos dizendo que sim
Os enganos dizendo que não

A mão
Procurando
"A mão"

A mão
Procurando
Em vão

Enquanto o vento percorre o caminho certo
E o tempo escorre pelas nossas mãos

Marcelo Albertini


sábado, 26 de julho de 2014

Ela via o mundo de uma forma,
que eu nunca havia enxergado
antes de conhecê-la.

Ela me notava de um jeito,
que nem eu mesmo
havia me notado antes.

Ela trazia o céu,
pra bem perto
de nós dois.

Ao seu lado,
eu me sentia feito véu
jogado ao brando vento.


Marcelo Albertini

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que por falta da magia do amor, pessoas estão morrendo por aqui. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que por falta das magias da solidariedade e da caridade, pessoas estão passando fome e frio por aqui. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que por falta de sabedoria, pessoas continuam a travar guerra por aqui. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que por falta da magia da esperança, pessoas boas estão adoecendo. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que faltam tantas outras magias tão importantes por aqui. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo, que a grande maioria das pessoas, não estão sendo contagiadas pela magia da minoria que amam, que são solidárias, caridosas e sábias. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que nenhuma dessas pessoas, as quais fazem parte da minoria estão no poder, em nenhum lugar do mundo. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que aqueles que lutam em prol do bem comum, e vão a público, acabam enfrentando terríveis dificuldades e, até morrendo, tornando-se mártires. Não deixe as fadas do conto ficarem sabendo que a desigualdade por aqui é tanta, que as pessoas preferem não tomar consciência, porque chega a doer. Diga a elas, que recuso o convite para habitar o seu mundo. Vontade não me falta, sobra. Mas não posso apagar as lâmpadas da mente e do coração e, simplesmente sair de fininho negando apoio aos meus iguais, consumando um ato de covardia. Por favor, diga a elas que permanecerei por aqui. Dê uma desculpa qualquer, mas não deixe que as fadas do conto fiquem sabendo, nem por decreto, que o conto daqui enfada. E o fardo de injustiças, a cada dia que passa, fica mais pesado. E não há fada que dê conta de assimilar tudo que acontece por aqui. É preciso ser muito humano.


Marcelo Albertini 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Estou muito distante de ser santificado
Só pelo fato de ser poeta, já caio pro final da lista
Mas tem horas que fico contemplando esse meu vazio
Como se ele fosse um templo repleto de "faltas" inofensivas
Tão alheio a esse grande vazio que nos circunda por aí
Como se estivéssemos dentro de um gigantesco sino
Prestes a iniciar infinitas baladas tilintando nossa harmonia
Ficamos todos ensurdecidos protegendo nossos pequeninos
E sacros vazios


Marcelo Albertini

terça-feira, 22 de julho de 2014


Mas que crônica cronicamente crônica que escrevi. Comecei escrevendo amor... crônico. Continuei escrevendo ilusão... crônica. Não pude evitar e escrevi desilusão... crônica, a qual me levou a escrever imediatamente sofrimento... crônico. Deveria ter parado de escrever nesse exato momento. Atrevi-me e continuar e escrevi dor... crônica. Voltei os olhos e reli a palavra anterior e doeu mais ainda... cronicamente. Indaguei-me: mas que crônica é essa? Respondi-me: não é crônica, são sentimentos... crônicos. A única coisa que não é crônica em minha vida é a paixão. Essa danada insisti em ser aguda.

Marcelo Albertini

segunda-feira, 21 de julho de 2014


Poeta quando criança,
Nunca diz que vai ser poeta quando crescer.

Nunca ouvi criança nenhuma dizer:

- Quero ser poeta quando eu crescer!
Poeta geralmente se torna tantas outras coisas,

Antes de se descobrir poeta.
Poeta geralmente deixa de escrever tantos versos,

Antes de se descobrir poeta.
Poeta geralmente se nega a ser poeta,

Antes de se descobrir poeta.
Poeta já nasce poeta,

Predestinado antes de seu nascimento,
Lavrado nos autos das escrituras celestiais.

Ao passo colocado em sucessivas passadas,
Que sempre o levam para o exercício de escrever,

Ser poeta não é uma questão de escolha.
Poeta nasce poeta, cresce poeta,

Escreve, descreve, discorre e escreve, escreve...
E permanece poeta em seus escritos,

Para todo o sempre.
Poeta se eterniza no amor, na dor, no sofrimento...

Na alegria, na felicidade, na tristeza, nos lamentos...
Na teoria e na prática explícitas ou veladas...

De tudo aquilo que escreveu.

Marcelo Albertini

domingo, 20 de julho de 2014

Às vezes me perco durante a viagem. Durmo e passo batido pelo destino almejado. Às vezes retorno, noutras vezes não. Às vezes é bom, noutras vezes é ruim. Às vezes erro tentando acertar, noutras vezes acerto errando. O caminho é muito exaustivo. É inevitável se render aos cochilos. O caminho é tão exaustivo, que às vezes me perco do meu próprio destino.


Marcelo Albertini

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Versos vermelhos

Pensando em ti,
pintei meus versos.

Não havia tinta,
mas nem foi preciso.

Estava a jorrar sangue...
pelo peito ferido, ainda aberto...
pelo peito aberto, ainda ferido.


Marcelo Albertini

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ao vê-la esfacelada e prostrada sobre a cama, configurando o cenário de um mar de tristeza, ele perguntou:
- O que sentes?
E ela respondeu com a voz a sumir antes do término da pronúncia da única palavra que conseguiu falar:
- Frio.
Ele se dirigiu até o armário, tomou para si um agasalho e um par de meias e ajudou-a a se vestir, mas percebeu que não havia mudado nada. Então, insistiu na pergunta:
- O que sentes?
E ela insistiu na resposta:
- Frio.
Rapidamente ele foi até a cozinha, passou um café e levou até ela. Ela tomou. E ainda assim não havia mudado nada. E ele perguntou novamente, com a mesma calma:
- O que sentes?
E ela respondeu acrescentando duas palavras, sendo uma delas repetida:
- Frio. Muito frio.
Ele retornou ao armário, pegou dois cobertores e a cobriu delicadamente. E ela continuou a esbanjar tristeza. E ele continuou a perguntar:
- O que sentes:
E ela respondeu:
- Frio.
Ele retirou os sapatos e se aconchegou ao seu lado na cama. Envolveu-a em seus braços, suspirou fortemente e a apertou num abraço vigoroso sem previsão de fim. Então, olhou para ela e notou que seu semblante havia melhorado. Apenas permaneceu ali ao seu lado e não perguntou mais nada, mas mesmo assim, ela se virou para ele, sorriu e disse:
- Não sinto mais frio.
E ele apenas devolveu o sorriso.

Marcelo Albertini


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ah, se todo Mário
fosse Moraes.
Se todo Vinicius
fosse Quintana.

Se todo Gonçalves
fosse Drummond.
Se todo Carlos
fosse Dias.

Se todo Paulo
fosse Neruda.
Se todo Pablo
fosse Leminski.

Se todo Machado
fosse Pessoa.
Se todo Fernando
fosse de Assis.

Ah, se toda Florbela
fosse Lispector.
Se toda Clarice
fosse Espanca.

Se toda Cecília
fosse Coralina.
Se toda Cora
fosse Meireles.

Ah, se toda a poesia
estivesse no ser humano.
Se todo ser humano
estivesse imerso em poesia.

Nas vidas,
haveria mais mundo.
No mundo,
haveria mais vida.


Marcelo Albertini
Amor tranquilo

Louca paixão...
Quem nunca teve?
Quem nunca quis?

Louca paixão...
Que de tão boa,
te deixa infeliz.

Louca paixão...
Que de tão boa,
desiste de ti.
...
Hoje só quero repousar,
nos embalos da rede
de um amor tranquilo.

Hoje só quero me embalar,
na felicidade de ter um amor,
sempre comigo, em nossos caminhos.


Marcelo Albertini

terça-feira, 15 de julho de 2014


Céu,
gigantesco quadro negro.
Uma vez me disseram
que estava escrito
nas estrelas.
Até o presente
momento,
nada li.
Apenas alguns
rascunhos
de textos
incompletos,
de escribas
que não retornaram
para retomar o processo.
Se havia estrelas
inscritas em ti,
algum apagador
sobrevoou por aí,
apagando escrituras
estrelares
como se apagasse
rabiscos de giz.
Ou dessa
linguagem,
ainda não aprendi.


Marcelo Albertini

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Antes fosse...

Antes fosse amor
Seríamos, agora, um
Mas somos, agora, dois
Eu, sempre a dois passos
de um poço chamado saudade
Você, sempre a dois palmos
de minhas ilusões
Dois caminhos distanciados
Um sonho passado
contido no silêncio dum antes
que foi amor
e se foi


Marcelo Albertini

sábado, 12 de julho de 2014

Toda essa insensibilidade
que me rodeia,
apaga a luz de minha razão.
Sigo no escuro,
submerso num lago
repleto de mágoas minhas,
de autoria de outrem.
Inclino a cabeça
para tentar respirar
o ar da orientação.
Mas continuo a seguir
trôpego e desorientado.
Sigo fadigado e desacreditado,
tanto, tanto, mas tanto,
que não consigo enxergar
a centelha que emana
a luz da minha reorientação.
Mas eu sei que ela existe.
Eu sei que existe gente
com coração.
Apesar de toda essa
frustração.


Marcelo Albertini

sexta-feira, 11 de julho de 2014

acho que não seria bom
ficar a sós contigo...
por você sinto aquela sensação
de imaginar nós dois, 
bem mais que amigos...
mas das vezes que deixei 
essas situações fluírem,
coloquei amizades em risco...
algumas, até hoje,
estão sendo julgadas,
nem sei onde e nem por quem.
só sei que não é por mim.
mas ainda acho que não seria bom
ficar muito a sós contigo.

quando te vejo?

Marcelo Albertini

quinta-feira, 10 de julho de 2014


Falar ou escrever?

 

São tantas palavras

que saem tropicando

umas nas outras,

procurando atalho

pra atingir o papel.

 

É tanto silêncio

pra sentir o barulho

do vento,

e ouvir a pele se arrepiar,

que nos falta voz,

mas não faltam palavras.

 

Palavras usadas

a contento,

na leitura,

no teu silêncio...

basta para leres

o meu.

 

Ouvirás sempre

minha voz quente

quando me leres.

Pois, às vezes, falar...

é lançar palavras

num vácuo insensível.

Escrever é compartilhar

silêncios... dignos.

 

Marcelo Albertini

 

refugar

ou

refinar?

sublinhar

ou

sublimar?

desejar

fazer

ou

fazer

desejar-te?

amar-te

até

a morte

ou

amar-te

até

amor ter-te?

som e arte

ou

sonhar-te?

insinuar-me

ou

insinuar ter-te?

realizar

ou

reles azar?

indagar-te

ou

indignar-me?

inalar-te

e

exalar saudade?

sem respostas

ou

propós(i)tas

(in)quietudes?

 

Marcelo Albertini

 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sou sombras
das sobras.
Das sobras
sou sombras.
Sou brando.
Sou brado.
Sol brando
te trouxe.
Sol brado
levou-te.
Sobraram
as sobras
do amor teu.
Sobraram
as sombras
das sobras.
As sombras
sou eu.

Marcelo Albertini


terça-feira, 8 de julho de 2014

Há tanta beleza
na leveza daquela princesa.
Em seus sentimentos
tão desprendidos e tão genuínos.
Há tanta verdade
em suas dúvidas.
Há tanta perseverança
em sua angústia.
Há tantos motivos
em seus objetivos.
Em sua ânsia
de mudar o mundo.
Em seu mundo singular
de transparência ímpar.
Há tanta humildade
em vossa majestade.
Que nem ela se dá conta.
Eu enxergo uma raridade,
que meus olhos
há muito tempo não veem.
Tanta leveza
naquela beleza,
devaneios explícitos
por pura insegurança,
de um coração que bate
em seus olhos,
em sua voz,
em seus gestos,
em suas atitudes.
De um coração,
escancaradamente,
sincero.


Marcelo Albertini

segunda-feira, 7 de julho de 2014


Quando retiro você
dos parênteses,
coloco-te entre
colchetes.
Quando retiro você
dos colchetes,
coloco-te entre
aspas.
Quando decido
firmemente,
por um ponto final,
coloco reticências.
Três pontinhos
que eternizam
a minha incapacidade
de perpetuar
a ausência tua.


Marcelo Albertini

domingo, 6 de julho de 2014

Sinto sua falta
nos pesares saudosos
de meu viver.
Sorrisos diurnos
e noturnos prantos.
Naturalidade durante o dia.
Inconstância durante a noite.
Outrora seguia a luz do sol.
Hoje dependo do vento
a arrastar-me para diante.
E toda noite penso em ti,
na escuridão de meu quarto
sem lua.


Marcelo Albertini
Verbos
Cruz
Dados
Exaltados
Lançados
Jogados
Desajeitados
Aparados
Sem cuidado
Resultado
Anulado
Faz sentido
Eram versos
Cruzados
Descritivos
Inscritos
Num vazio
Jaz
Escrito.


Marcelo Albertini

sábado, 5 de julho de 2014

Profeta

Poeta é profeta,
sim senhor.
É profeta do passado.
É profeta passador.
Passa tudo o que passou
para o papel.
A alegria e a tristeza,
a saudade...
...o amor e a dor.
E haja dor.
Passa dor e passa a dor.


Marcelo Albertini
Ao amor,
que ainda não tive,
dedico toda poesia,
que ainda não escrevi.

Amor passado
finda no outono.
Amor novo
nasce no primor
da primavera.

Há de ser tudo novo...
eu para você
e você para mim.
O amor e a poesia entrelaçados
numa mesma harmonia
de amor sem fim.


Marcelo Albertini

sexta-feira, 4 de julho de 2014


Descuido

 

Cuidado nunca é demais,

já dizia minha avó.

Aí você se preocupa

em andar na velocidade permitida,

a usar cinto de segurança,

a evitar certos alimentos,

a passar bem longe

das drogas ilícitas,

a evitar lugares perigosos

e violentos,

e se apaixona!

 

Marcelo Albertini

A poesia está por aí...

 

Há poesia no jardim de meu quintal

Nas roupas estendidas no varal

No João de Barro a construir sua casa num poste de eletricidade

Há poesia nas coisas do campo

e nas coisas da cidade

Há poesia nos embalos do dia

e nos regalos da noite

Há poesia no sol, do nascente ao poente

Há poesia na lua a quebrar lindamente a escuridão do céu

Há poesia no véu da moça que casa

Há poesia na moça que solteira decide ficar

Há poesia para os amores correspondidos

e para os amores desiludidos

Há poesia pro povo do beco, do gueto, do frevo,

do frio, do calor, do fervo, da calma, da luz e do breu

A poesia pode estar nas igrejas e nos centros espíritas

Pode estar em seitas e monastérios

A poesia pode estar nos corações dos religiosos e dos ateus

A poesia não se importa com cor, raça ou orientação sexual

A poesia gosta de diversidade

A poesia toca os corações de pessoas com baixo e alto astral

A poesia age positivamente nos bons e maus momentos

Há poesia no vento

e no remoer de ressentimentos

Há poesia na brisa

e no inebriar-se de alegria

Há poesia na realidade

e na fantasia

Há poesia na dor de quem perde alguém

Há poesia no choro de dor de quem nasce

que emana alegria ao entorno de quem escuta

Há poesia nos rastros de quem se vai

e na angústia de quem fica

Há poesia no bom e no ruim do amor

Há poesia nos lábios de quem sorri

e no escorrer de lágrimas dos olhos de quem chora

A poesia pode estar em todos os lugares

e em todos os momentos

A poesia pode ser o cobertor a aquecer no frio

Pode ser a luz a clarear o breu

A poesia pode ser o lenço a enxugar as lágrimas

Pode ser o abraço a confortar corpo e alma

A poesia pode ser o chocolate quente no inverno

Pode ser o sorvete no verão

A poesia tem acesso livre a todas as dimensões

A poesia enriquece as canções

Consegue invadir até os corações mais rijos

A poesia come pelas beiradas

e sempre atinge seu objetivo

A poesia está nas pessoas

nas coisas, na natureza

No tacho com tutu de feijão sobre o fogão à lenha

Nas lendas contadas aos amigos ao redor da fogueira num dia frio

No tilintar de copos de bebida a baterem no compartilhar de alegrias

A poesia está até nas coisas que não se vê

Está nas coisas que se sente

E nas coisas que se pressente

Está no amor aos presentes e aos ausentes

Está com aqueles que se vão,

mas está, especialmente, com aqueles que ficam

A poesia está na sincronia aguçada das sensações do poeta

com o percorrer afoito da caneta sobre a folha de papel,

mas está, principalmente, nas fontes de inspiração

Essas sim são reais poesias

Pois sem elas

poema nenhum haveria.

 

Marcelo Albertini

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vazio

Entrou em meu vazio
sem receio
Fez melodia
com meu silêncio
Fez esculturas
com meus ressentimentos
Pintou toda a tristeza
com felicidade
Varreu para fora
toda a saudade
Abriu portas e janelas
deixando o sol entrar

Entrou em meu vazio
sem medo
Acendeu a luz
de minha alma
Preencheu de si
a minha calma
Encheu de amor
o vazio de outrora

Marcelo Albertini
A incandescência da aurora
dissipa meu gosto de noite.
E o gosto pelo dia começa
com o sentir do cheiro de café.
Que desce quente
com sabor de enfrentamento
das lutas diárias da vida.
E mal começo a sentir o gosto do dia,
já fico ansiando pelo gosto da noite.
Seu colo, sua companhia,
seu encantos.
Meu recanto particular,
toda noite.
Onde encontro a cafeína necessária
para enfrentar os fervores do dia-a-dia.


Marcelo Albertini
Ventos vorazes me levaram até você
Lindas e finas plumas
recobrindo as irregularidades e rigidez rochosas
acolheram-me
A paisagem mística e suas perigosas ilusões
encantaram-me
As formosas e atraentes pétalas
tornavam os numerosos e sobressalentes espinhos invisíveis
os sentidos não me serviam mais
ouvia e via apenas aquilo que você queria
acreditava apenas naquilo que você permitia
até o momento em que o sonar do meu coração
pôs à prova a visão
abrindo os olhos, os ouvidos, a mente
que deixou de mentir para si mesma
Brisas suaves me levaram de você
às sutilezas das verdadeiras paisagens
as quais não fizeram esquecer
mas permitiram que eu vivesse
e amasse em paz.


Marcelo Albertini
Falácia

Falácia
Fala doce
Que esconde a fala ácida

Falácia
Face terna
Que esconde a face áspera

Falácia
Faca cega
Que esconde a faca afiada

Falácia
Com perfume
de flor de Acácia

Fala Falida
Face esmaecida
Faca corroída

Com perfume
de flor de Acácia
Fino engano: falácia.


Marcelo Albertini 

quarta-feira, 2 de julho de 2014


Sobre roupas, sobre almas.


Sabão lava roupas

Boa Música lava a alma

Coloca-se roupas brancas de molho

Coloca-se almas boas para meditar

Centrifugar tira o excesso de água das roupas

Chorar tira o excesso de dor da alma

Roupas ficam especiais com amaciantes

Almas ficam especiais com carinho

Roupas passadas ficam nobres

Almas com caráter ficam nobres

Roupas guardadas ficam em estado potencial para serem usadas

Almas reprimidas ficam em estado potencial para efetivamente viverem

É bom sentir cheiro de roupa limpa

É maravilhoso sentir a presença de almas puras

Roupas podem ser lavadas

Almas podem ser resgatadas

Roupas vestem pessoas

Almas podem vestir o mundo em todas as dimensões

Definitivamente, lama não lava roupas

Assim como vingança não lava a alma.


Marcelo Albertini

Clímax

 

Versos que nascem no final do dia,

carregam-me ao desabrochar da noite.

Conduzem-me, sem abandono,

em momento algum,

pelos vieses do escurecer.

Colocam-me sob a luz do luar,

a desfrutar da companhia das estrelas,

num brilhar complementar e mútuo.

Deixam-me com coração pulsante

e sentidos extasiados,

culminando num clímax,

onde ocorre a entrega dum poema

e a minha entrega à poesia.

 

Marcelo Albertini