segunda-feira, 6 de julho de 2015


Primeiro levaram meus rins.

Sobrevivi.

Depois levaram meu fígado.

Sobrevivi.

Sem dó levaram meu pâncreas,

meu baço, meu estômago e meu intestino.

Fiquei sem chão à mercê do destino,

mas não caí em desatino.

Acreditem... Sobrevivi.

Até que tiraram meu ar.

Ousaram meus pulmões levar.

E levaram.

Ainda assim, sobrevivi.

Mas no dia mais belo

que eu já vivi,

sob a luz sagrada

e verdadeira do luar,

levaram meu coração.

Fiquei sem ação.

Perdi a noção.

Enquanto levavam

meu coração dizendo:

"-Agora é o fim."

Morri querendo morrer.

Renasci querendo viver.

Não contavam com isso.

Mas não teve jeito.

Poeta eu virei.

 

Marcelo Albertini

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015


Vai

 

Vem bem lá de dentro

fecundada no martírio,

nos sofrimentos enfileirados,

emparelhados e enaltecidos.

Vem das verdades e da mentiras,

misturadas e entrelaçadas

numa paradoxal harmonia.

Vem do instilar minucioso

e categórico das palavras

que semeiam a angústia

e colhem a dor.

Vem da indiferença

articulada e pré-definida,

que fere aos poucos

e insulta a ferida.

Vem da falta de tino

e de conhecimento,

do falso sorriso,

do falso discurso

e do real abismo.

Vem bem lá do fundo,

daquele que pulsa,

que vibra, que sente

bem mais que sentido.

Vem de quem não se espera.

Vem da onde não se conta.

Vem da onde se encanta.

Vem, sempre vem.

Vai.

 

Marcelo Albertini

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015


No canto da varanda

cabe um beija-flor.

No canto da sala

cabe um vaso de flor.

No canto da imaginação

cabe um disco voador.

No canto da boca

cabe um sorriso.

No canto do mundo

cabe humanidade.

No canto da amizade

cabe cumplicidade.

No canto da poesia

cabe inspiração.

No canto do coração

cabe amor.

E que todo canto encante

e se prolifere por aí...

por favor!

 

Marcelo Albertini

domingo, 15 de fevereiro de 2015


Ela tinha uma excêntrica mania

de engavetar amores.

Seguia convicta

de que havia se esquecido de todos.

Só que a cada amor que engavetava,

engavetava um pouquinho de si.

E assim seguia esmaecendo aos poucos.

Enquanto seu arquivo

de amores mal resolvidos crescia,

em dores ela diminuía.

Levantar e acenar com um pano branco.

Sim! Ela podia.

Talvez exorcizar os amores antigos...

melhor resolveria.

Mas ela apenas seguia

fingindo que nada sentia

e que de nada sabia.

 

Marcelo Albertini

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015


Eu ainda não aprendi a dizer não.

Aquele "não" que não deixa remorso.

E ainda tenho dificuldades pra encontrar o "sim".

Quase sempre acho que não é pra mim.

Nem posso afirmar que tudo isso me incomoda.

O que mais me incomoda é tentar mudar

tudo aquilo que eu ainda acredito.

Mas se passar pelo crivo do coração...

aí eu assino.

 

Marcelo Albertini

 

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



tanto faz como tanto fez


tanto que se refaz


pra fazer tudo que desfez


tanto que se desfaz


de tudo que se refez


 


até um tanto quanto fez


tanto quanto faz


 


só pra entender que tanto


é uma questão de quanto


fez ou não

faz.


 


Marcelo Albertini

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015


não importa

qual o dia da semana

 

tem dias que sou segunda

 

não importa

a quantidade de cachaça               

 

tem dias que sou ressaca

 

e a vida continua

sendo esse copo miúdo amiúde


cheio de feiras.

 

Marcelo Albertini

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015


Há versos

 

Há versos

que vem

de repente

de onde

não sei

lhe dizer

 

Há versos

que eu mesmo

procuro

e encontro

sem saber

o porquê

 

Há versos

que cruzam

meu caminho

como se

o destino

insistisse

tanto

aí só assino

 

Há versos

que são

tão difíceis

que preferia

que não

existissem

mas se eles

vem

aperto o peito

cerro o punho

e aos soluços

escrevo

 

Há versos

que sempre

se perdem

alguns

por invadirem

meu sono

ou perturbarem

meu banho

mas hora ou

outra

eu os encontro

 

porque

abaixo

de meus

versos

sou só

escombros.

 

Marcelo Albertini

domingo, 1 de fevereiro de 2015


sol e lua são.

um solução

pro dia.

a outra solução

pra noite.

mas se não

iluminares

tua própria alma

e aqueceres

teu próprio coração.

Para ti,

amor nenhum

será solução.

 

Marcelo Albertini

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015


Teus olhos luas

em tua face anoitecer

emanam luz inspiração

carregada de estrelas mutantes

todas se transformam em cadentes

e caem por teu coração

braços antebraços mãos

dedos palavras escrevem

e você nunca esmaece

em teus próprios pedidos

todos atendidos

em teu poema prece

de que teu céu nunca amanheça

pois o sol sempre se esquece

da luz que há dentro de você.

 

Marcelo Albertini

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015


Amar é...

entrar na corda bamba

Manter o amor é...

conseguir se manter na corda bamba

Amor verdadeiro é...

continuar na corda bamba mesmo sabendo que ela não tem fim

 

Marcelo Albertini

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015


se tivesse

me sobrado

um pouco de amor

no bolso

eu iria apostar

na sorte na loteria

pra um montante

de amor ganhar

mas amor

não se guarda

no bolso

e nem com sorte

combina

e quase nunca

se sobra

e quando sobra

não é pouco

invade a alma

e corpo todo

até muda de nome

saudade

essa atrevida.

 

Marcelo Albertini

sábado, 24 de janeiro de 2015


Desculpe-me,

mas não posso mais ser

o que eu era antes.

As roupas já não me servem mais.

O elenco está incompleto.

E o caminho é muito distante.

Só as lembranças me permitem

visitar tudo aquilo que eu era antes.

Desculpe-me,

mas eu não quero mais ser

o que eu fui antes.

Todo aprendizado adquirido

não me permite mais.

As lembranças e o saudosismo,

ah... esses carrego sempre comigo.

Porque "ser" é uma evolução constante,

complexa e delicada demais

para caber num antes tão distante.

 

Marcelo Albertini

 

 

sábado, 10 de janeiro de 2015


o equilíbrio

entre o copo

de bebida

e a mente

deve ser preciso.

é uma coisa louca

esse negócio

de cheio e de vazio.

o copo cheio

esvazia a mente.

a mente cheia

deixa o copo vazio.

amor... repare bem

nas críticas

que despende.

de mente cheia

não há quem aguente.

 

Marcelo Albertini

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015



não deixo mais rastros


 


o nó que pintar desato


 


caretas já não disfarço


 


resposta ofereço no ato


 


não ouse seguir meus passos


 


mas se ousar será ao meu lado


 


lado a lado.


 


 


Marcelo Albertini


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015


Enlace tua alma

com teu corpo.

 

Enlace teus sentidos

com teu coração.

 

Enlace tua emoção

com tua razão.

 

E perceberá...

que outro tipo de enlace

é apenas complementar.

 

Marcelo Albertini